{"id":91,"date":"2017-11-28T12:41:21","date_gmt":"2017-11-28T12:41:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.lascompostivistas.com\/?p=1"},"modified":"2017-11-28T12:41:21","modified_gmt":"2017-11-28T12:41:21","slug":"experiencia-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/2017\/11\/28\/experiencia-1\/","title":{"rendered":"Experi\u00eancia n\u00ba 1"},"content":{"rendered":"<p><strong>01.08.17<\/strong><\/p>\n<p><strong>Trabalho de corpo<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>N\u00e3o fazer, s\u00f3 ser (Posturas de Yoga) trazer o corpo para uma condi\u00e7\u00e3o de conforto e disponibilidade de fazer presen\u00e7a.<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>Din\u00e2mica de desenhar junto <\/strong><\/p>\n<p>Grande folha no ch\u00e3o, pilots e orienta\u00e7\u00f5es da Be\u00e1. Atividade l\u00fadica de usar o espa\u00e7o e ocup\u00e1-lo com movimentos e cores.<br \/>\nConversas sobre a experi\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-51\" src=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-1ex1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"1276\" srcset=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-1ex1.jpg 1200w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-1ex1-282x300.jpg 282w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-1ex1-768x817.jpg 768w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-1ex1-963x1024.jpg 963w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-52\" src=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-2-exp1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"1052\" srcset=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-2-exp1.jpg 1200w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-2-exp1-300x263.jpg 300w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-2-exp1-768x673.jpg 768w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto-2-exp1-1024x898.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-53\" src=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto3-Ex1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"1200\" srcset=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto3-Ex1.jpg 1200w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto3-Ex1-150x150.jpg 150w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto3-Ex1-300x300.jpg 300w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto3-Ex1-768x768.jpg 768w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto3-Ex1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto3-Ex1-500x500.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-54\" src=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto4-exp1.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"1172\" srcset=\"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto4-exp1.jpg 1200w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto4-exp1-300x293.jpg 300w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto4-exp1-768x750.jpg 768w, https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/foto4-exp1-1024x1000.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. O ETERNO RETORNO DO ENCONTRO<\/strong><\/p>\n<p>Depoimento<br \/>\nOriginalmente publicada em A outra margem do Ocidente,<br \/>\n(org. Adauto Novaes, Funarte\/Cia. Das Letras, 1999)<\/p>\n<p>(&#8230;)<br \/>\nO territ\u00f3rio tradicional do meu povo vai do litoral do Esp\u00edrito Santo at\u00e9 entrar nas serras mineiras, entre o vale do Rio Doce e S\u00e3o Mateus. Mesmo que hoje s\u00f3 tenhamos uma reserva pequena no m\u00e9dio Rio Doce, quando penso no territ\u00f3rio do meu povo, n\u00e3o penso naquela reserva de 4 mil hectares, mas num territ\u00f3rio onde a nossa hist\u00f3ria, os contos e as narrativas do meu povo v\u00e3o acendendo luzes nas montanhas, nos vales, nomeando os lugares e identificando na nossa heran\u00e7a ancestral o fundamento da nossa tradi\u00e7\u00e3o. Esse fundamento da tradi\u00e7\u00e3o, assim como o tempo do contato, n\u00e3o \u00e9 um mandamento ou uma lei que a gente segue, nos reportando ao passado, ele \u00e9 vivo como \u00e9 viva a cultura, ele \u00e9 vivo como \u00e9 din\u00e2mica e viva qualquer sociedade humana. \u00c9 isso que nos d\u00e1 a possibilidade de sermos contempor\u00e2neos uns dos outros, quando algumas das nossas fam\u00edlias ainda acendem o fogo friccionando uma varinha no terreiro da casa ou dentro de casa, ou um ca\u00e7ador se deslocando na floresta e fazendo o seu fogo assim \u2013 autossustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essa simultaneidade que temos tido a oportunidade de viver \u00e9 uma riqueza muito especial e um dos maiores tesouros que temos. O professor Darcy Ribeiro costumava dizer que a maior heran\u00e7a que o Brasil recebeu dos \u00edndios n\u00e3o foi propriamente o territ\u00f3rio, mas a experi\u00eancia em sociedade, a nossa engenharia social. A capacidade de viver junto sem se matar, reconhecendo a nossa territorialidade um do outro como elemento fundador da sua identidade, da sua cultura e do seu sentido de humanidade. Esse entendimento de que somos povos, que temos esse patrim\u00f4nio e essa riqueza, tem sido o principal motivo e a principal raz\u00e3o de eu me dedicar cada vez mais a conhecer a minha cultura, conhecer a tradi\u00e7\u00e3o do meu povo e reconhecer tamb\u00e9m, na diversidade das nossas culturas, o que ilumina a cada \u00e9poca o nosso horizonte e a nossa capacidade como sociedade humana de ir melhorando; pois se tem uma coisa que todo mundo quer \u00e9 melhorar. Os \u00edndios, os brancos, os negros e todas as cores de gente e culturas no mundo anseiam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2.\u00a0 O RIO DA MEM\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<p>Entrevista<br \/>\nOriginalmente publicada no site Museu da Pessoa, em 14 de mar\u00e7o de 2008.<\/p>\n<p><strong>E quando voc\u00ea nasceu?<br \/>\n<\/strong>Eu nasci em 1953. Eu nasci no s\u00e9culo passado, nessa regi\u00e3o que \u00e9 um c\u00f3rrego. O pessoal da minha regi\u00e3o atribu\u00eda a falar o nome do c\u00f3rrego, do rio mais perto para dizer de onde era. Ah, se voc\u00ea estava na margem do rio voc\u00ea falava que era do rio tal, se voc\u00ea estava na cabeceira do rio voc\u00ea dava o nome do c\u00f3rrego, que vinha da cabeceira do rio. Eu nasci num c\u00f3rrego que chama c\u00f3rrego do Itabirinha, ele \u00e9 da bacia do Rio Doce, ele vai jogar a \u00e1gua desde l\u00e1 no Rio Doce e o Rio doce depois leva todas as nossas ideias, nossos pedidos, lembran\u00e7as, lamenta\u00e7\u00f5es, e despeja l\u00e1 no mar.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea se lembra de quando era pequenininho, voc\u00ea podia descrever como era o lugar que voc\u00ea morava? Com quem voc\u00ea morava?<br \/>\n<\/strong>Olha, a minha vida de menino foi cheia de aventura, porque eu estava no meio de mais de seis irm\u00e3os. E no meio de mais de uns 50 primos. E no meio de um monte de tias. Esses camaradas todos, esta gente toda, era como nossos parentes mais \u00edntimos. A gente estava tudo perto um do outro, ent\u00e3o, a gente n\u00e3o tinha lugar para dormir. Voc\u00ea podia dormir em qualquer lugar, se anoitecesse voc\u00ea podia dormir na casa da sua tia Preta, voc\u00ea podia dormir na casa da tia Maria, voc\u00ea podia dormir na casa de qualquer um. Voc\u00ea podia dormir na casa de seus primos, na casa da sua m\u00e3e, na casa da sua av\u00f3, na casa dos seus tios. Na hora de comer, se voc\u00ea estivesse em tr\u00e2nsito, no lugar que voc\u00ea estivesse, voc\u00ea podia comer ali. N\u00e3o era estranho comer na casa de seus parentes, era em casa tamb\u00e9m. O dia nem bem-amanhecia a gente j\u00e1 estava aproveitando as primeiras luzes pra sair plantando, pegar boi, pegar cabrito, pegar cavalo, ir para o curral onde pessoas estavam tirando leite das vacas para beber leite na hora que tirava na caneca. E imitar os adultos agarrando aqueles boizinhos pequenos. Os homens grandes pegavam bois grandes, meninos pegavam bois pequenos. Ent\u00e3o, juntava um monte de menino, um puxava o rabo do boi, o outro puxava a perna do boi e outro montava no bezerro e quebrava o bra\u00e7o, quebrava o pesco\u00e7o, rachava a cabe\u00e7a, quebrava a perna. Toda hora tinha um moleque arrebentado. Assim, doideira mesmo. E disparava num cavalo montado num cavalo sem nada. O cavalo em pelo, sem freio, sem nada. A gente tirava embira do mato, pegava a embira e ia aliciando o animal, capturava ele, enfiava aquele cabresto na boca dele, amarrava na boca dele uma embira feita de fibra de coisas do mato e um menino jogava o outro em cima do cavalo. Porque o menino n\u00e3o tinha altura para montar num cavalo. Ent\u00e3o, ele jogava o outro em cima do cavalo, o cara se agarrava l\u00e1 com aquela embira e o bicho sa\u00eda voando com o moleque em cima. A possibilidade desse moleque se arrebentar debaixo de uma \u00e1rvore, passando com o cavalo era imensa. A gente tinha que ter essas manhas. Pendurar num pau e deixar o cavalo ir embora ou meter a cara no pau e cair no ch\u00e3o, ou esperar o cavalo passar dentro d\u2019\u00e1gua para voc\u00ea cair de cima dele dentro d\u2019\u00e1gua. Se ele pegava uma grota daquelas e subia para uma pedreira daquela l\u00e1, fugindo com voc\u00ea, voc\u00ea tinha que encarar estas aventuras.<\/p>\n<p><strong>3.\u00a0 O RIO DA MEM\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<p>Entrevista<br \/>\nOriginalmente publicada no site Museu da Pessoa, em 14 de mar\u00e7o de 2008.<\/p>\n<p><strong>E voc\u00ea se lembra de quando era pequenininho, voc\u00ea podia descrever como era o lugar que voc\u00ea morava? Com quem voc\u00ea morava?<br \/>\n<\/strong><strong>(continua\u00e7\u00e3o)<br \/>\n<\/strong>E \u00e9 desse tempo a lembran\u00e7a mais rica talvez que eu tenho guardado da conviv\u00eancia com o meu pai e da presen\u00e7a do meu pai e da minha m\u00e3e. Foi naquela grande aldeia dos meus primos, primas, tios, daquela parentalha toda. Porque a partir do que deve ter sido a\u00ed por meus 11, 12 anos de idade que a regi\u00e3o que eu nasci, que meu pai, minha m\u00e3e, essa minha parentalha p\u00f4de viver em vida selvagem mais ou menos, come\u00e7ou a ser colonizada de uma maneira t\u00e3o violenta que as \u00faltimas matas, as \u00faltimas \u00e1rvores realmente frondosas que tinham na nossa regi\u00e3o foram arrancadas em carretas. E eu me lembro que foi a primeira vez na minha vida que eu senti cheiro de diesel. E eu estranhava para caramba, eu achava muito ruim o cheiro de graxa e de diesel, porque o diesel era o combust\u00edvel que os caminh\u00f5es grand\u00f5es que entravam para tirar nossa mata usavam. E era aquele calor, aquela poeira danada, aqueles caminh\u00f5es passando levando a mata embora. E eu n\u00e3o tinha uma percep\u00e7\u00e3o dessa coisa de meio ambiente, desses trens assim mais complexos, mas eu sabia que aqueles caras estavam roubando alguma coisa impag\u00e1vel. Hoje eu sei que eles estavam acabando com o meio ambiente, eles estavam acabando com as nossas nascentes, com as nossas \u00e1guas, com os p\u00e1ssaros, com os bichos que eu amo. Mas na minha inoc\u00eancia o que eu sentia \u00e9 que aqueles caras eram desagrad\u00e1veis, que eles fediam a diesel e graxa e aqueles caminh\u00f5es eram barulhentos. A\u00ed, com esta ocupa\u00e7\u00e3o da nossa regi\u00e3o por empreendedores, madeireiras, serrarias, colonos, criadores de gado, fazendas, n\u00f3s sa\u00edmos meios expulsos desta regi\u00e3o. Foi quando a gente fez a nossa primeira migra\u00e7\u00e3o e sa\u00edmos. Meu pai, meus tios, meu av\u00f4, com uma renca de netos, sobrinhos e filhos, sa\u00edram de l\u00e1 com uma intens\u00e3o meio difusa de ir pro Paran\u00e1. A gente saiu achando que aquele montinho de gente ia atravessar Minas e ia at\u00e9 um lugar que era chamado de Paran\u00e1, porque na \u00e9poca tinha gente saindo de l\u00e1 da nossa regi\u00e3o indo pro Paran\u00e1, dizendo que o Paran\u00e1 tinha floresta, tinha bicho, tinha muita fartura, tinha rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4.\u00a0 O RIO DA MEM\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<p>Entrevista<br \/>\nOriginalmente publicada no site Museu da Pessoa, em 14 de mar\u00e7o de 2008.<\/p>\n<p><strong>Quais foram os primeiros animais que voc\u00ea conheceu?<br \/>\n<\/strong><strong>&#8230;<br \/>\n<\/strong>Acho que muita gente da minha gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o nasceu nas cidades viveu estas aventuras. Eu nasci em 1953. O Brasil n\u00e3o era esta coisa urbana que a gente conhece hoje. Meu av\u00f4, minha m\u00e3e, minha turma toda teve a experi\u00eancia da inf\u00e2ncia em contato com a natureza, com os ciclos da natureza. Com as tempestades com as chuvas, com chuvisco. A pedra que desce do c\u00e9u arrebentando tudo. E com a natureza agindo sobre a nossa mem\u00f3ria, sobre a nossa compreens\u00e3o do mundo de uma maneira t\u00e3o poderosa, que desde pequenininho a gente ia ganhando uma marca\u00e7\u00e3o forte do ritmo da natureza. Do tempo das \u00e1guas, do tempo da seca, do tempo das enchentes, das inunda\u00e7\u00f5es. Tanto que os meninos botavam fogo na lavoura, botava fogo no pasto, botava fogo no mato seco, porque os meninos sabiam que aquela \u00e9poca era \u00e9poca que a terra, o lugar onde eles viviam, estava seca. Por isso que eles botavam fogo, n\u00e3o era s\u00f3 uma sacanagem dos meninos. N\u00f3s nunca pensamos que est\u00e1vamos fazendo qualquer coisa errada, a gente botava fogo no mato porque o mato estava seco e n\u00e3o tem melhor coisa que tacar fogo no mato quando ele est\u00e1 seco. Depois vem a chuva e depois vem a enchente. A gente tinha certeza que depois vinha a chuva. A gente tinha certeza que depois vinha a inunda\u00e7\u00e3o, vinha enchente e tudo. Ent\u00e3o a gente n\u00e3o se preocupava de botar fogo no mato. Hoje eu fico prestando a aten\u00e7\u00e3o, se o menino botar fogo no mato hoje, nossa ser\u00e1 um inferno. O menino n\u00e3o pode mais botar fogo no mato, porque n\u00e3o tem mais mato. Acabaram com o mato todo. No meu empo tinha mato de uma gera\u00e7\u00e3o, duas, tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es. Essas coisas s\u00e3o formadoras da identidade, da cabe\u00e7a da pessoa, do ser. Mudam tanto, e eu fico olhando para quando era menino. Agora que meu netinho Si\u00e3, que est\u00e1 com tr\u00eas anos, ou que meu filho Kremba que est\u00e1 com seis anos, o que eles experimentam em rela\u00e7\u00e3o a liberdade? A liberdade de estar na natureza, de interagir, de mexer com as coisas da terra e de ter a impress\u00e3o do mundo sobre eles? A natureza potente com chuva, com vento, com seca. Esse contato est\u00e1 sendo cada vez mais distante. E eu tenho o desejo que as crian\u00e7as do mundo inteiro possam se chocar com a natureza, e n\u00e3o viverem separadas da natureza. Porque eu acho que enquanto a gente puder se chocar com a natureza, n\u00f3s vamos continuar tendo mem\u00f3ria dos antigos seres humanos, que s\u00e3o os nossos ancestrais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>5.\u00a0 O RIO DA MEM\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<p>Entrevista<br \/>\nOriginalmente publicada no site Museu da Pessoa, em 14 de mar\u00e7o de 2008.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que foi sua experi\u00eancia de aprender com as coisa? Voc\u00ea aprendia com quem?<br \/>\n<\/strong>Com a natureza principalmente. Eu estava falando desse neg\u00f3cio do choque da natureza, porque agora que eu j\u00e1 sou, \u00e9 &#8230; Estou mais, digamos, crescidinho, e passei a enfrentar as situa\u00e7\u00f5es novas, que eu tinha que responder essas situa\u00e7\u00f5es, desafios do mundo dos adultos. Do trabalho, por exemplo. O qu\u00ea que \u00e9 o mundo do trabalho? O mundo do trabalho \u00e9 uma escala grande daquilo que eu vivi com o meu choque com a natureza. Tudo que a natureza me ensinou me deu pot\u00eancia para resolver coisas agora que eu sou um camarada mais crescidinho. Quando eu era pequeno e andava com aqueles balaios, com aquelas peneiras, enfiando na beira d\u2019\u00e1gua, subindo o igarap\u00e9, na beira d\u2019\u00e1gua tinha vegeta\u00e7\u00e3o que ca\u00ed a e tampava a vis\u00e3o. Ent\u00e3o, eu ia por ali batendo a peneira. Os meninos l\u00e1 batendo pau e espantando os bichos. Dali daquelas beiradas de barranco a gente podia dar a sorte de pegar uma tra\u00edra bacanona, mas tamb\u00e9m podia sair uma cobra, uma sucuri, podia sair um bicho dali. Ent\u00e3o a gente estava treinando nossa intelig\u00eancia, a gente estava treinando nossa capacidade para lidar com complexidade, com desafio. Se viesse uma cobra a gente tinha que fazer alguma coisa, se viesse uma tra\u00edra a gente agarrava ela. E a gente ia com os pezinhos descal\u00e7os. Porque eu devo ter usado mesmo um cal\u00e7ado destes que prende o p\u00e9 s\u00f3 a partir de oito, 10 anos de idade. Antes disso eu andava com meu p\u00e9 totalmente a vontade no ch\u00e3o. At\u00e9 jovem, idade j\u00e1 de rapazinho, eu sempre tive a maior liberdade com meu p\u00e9. N\u00e3o queria ficar prendendo ele. N\u00f3s, os meninos que cresceram comigo, cresciam com o p\u00e9 livre. P\u00e9 livre, cabe\u00e7a livre. A gente andava pisando na pedra, pisando no ch\u00e3o. A gente ia por dentro da \u00e1gua metendo o p\u00e9, assim, no fundo e a gente sabia que no fundo era de mat\u00e9ria org\u00e2nica que estava podre, de material que estava ali. Aquelas coisas que caiam de folha de mato. Ou se o ch\u00e3o era de areia ou uma laje de pedra. A gente ia pegando isso tudo de sensa\u00e7\u00e3o. Era nosso p\u00e9 que ia lendo o ch\u00e3o para a gente. A gente estava aprendendo. Ent\u00e3o, n\u00f3s aprendemos tateando. Tateando o mundo, tateando a terra. Sentindo o cheiro de mato, sentindo o cheiro dos bichos. Voc\u00ea ia enfiando aquele balaio, aquela coisa t\u00e3o espont\u00e2nea dos meninos, de enfiar a peneira dentro d\u2019\u00e1gua, de jogar ela pra fora para tirar os bichos que se pescava, que se pegava.<\/p>\n<p>Essas pr\u00e1ticas todas eu sinto que uso hoje. \u00c0s vezes eu estou, sei l\u00e1, numa reuni\u00e3o, numa situa\u00e7\u00e3o diferente na pol\u00edtica, uma situa\u00e7\u00e3o que eu tenho de representar minha fam\u00edlia, o meu povo ou o movimento social que eu estou engajado, ou um interesse de um empreendimento que estou envolvido. E eu tenho que discutir com um camarada, um executivo de uma empresa, ou com um ministro, com um camarada do governo, seja quem for, mas ele tem um ponto de vista que \u00e9 diferente do meu. Ali naquele momento que eu estou confrontando aquela situa\u00e7\u00e3o o menino vem e me d\u00e1 a m\u00e3o. O menininho do balaio, da peneira, est\u00e1 l\u00e1. \u00c9 aquele menininho sabido, que chega e fala: \u201cOh, passa a peneira assim, entendeu? Vira o balaio para l\u00e1. D\u00e1 um pulo para tr\u00e1s. Cai de cabe\u00e7a.\u201d Ent\u00e3o eu tenho certeza que esses momentos que a gente p\u00f4de viver a verdadeira liberdade, onde a gente corria o risco, inclusive, de se matar, porque eu falei com voc\u00eas que alguns dos meninos morreram, foram importantes. Mas o maravilhoso disso, \u00e9 que a gente estava t\u00e3o pleno de vida que tudo quanto inje\u00e7\u00e3o que a gente pegou da vida ali pontencializou a gente, pra gente viver em qualquer lugar do mundo. Eu j\u00e1 fui pro Jap\u00e3o, eu j\u00e1 fui para Europa, para os EUA, j\u00e1 andei pela Am\u00e9rica Latina, j\u00e1 entrei em lugares que s\u00f3 doid\u00e3o, que s\u00f3 guerrilha mesmo \u00e9 que anda, j\u00e1 fui em reuni\u00e3o do Banco Mundial, no Congresso Americano, na ONU, na CIA e na KGB. J\u00e1 andei nesses lugares todos e pra mim n\u00e3o tem import\u00e2ncia nenhuma, porque o lugar mais bacana do mundo que eu j\u00e1 fui mesmo foi dentro daqueles c\u00f3rregos, passando peneira, enfiando balaio, andando em balaio no lombo de burro.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a terra d\u00e1 um imenso manual de vida para os meninos, ainda mais no comecinho da vida. Esse choque com a terra, com a natureza, \u00e9 de alguma maneira uma antecipa\u00e7\u00e3o desses adultos, dessas futuras\u00a0 gera\u00e7\u00f5es de adultos, que eu fico pensando que ser\u00e3o diferentes dos antigos seres humanos que n\u00f3s aprendemos a amar, que aprendemos a escutar as hist\u00f3rias. Eles corriam mais riscos, morriam mais,. Eles n\u00e3o eram t\u00e3o garantidos. Voc\u00ea n\u00e3o tinha certeza nenhuma se o seu pai ficaria vivo at\u00e9 ver voc\u00ea grande. Se o seu av\u00f4 estaria l\u00e1, velhinho. Agora n\u00f3s estamos vivendo no mundo das certezas. Todo mundo p\u00f5e tudo no seguro, e fica essa perspectiva totalmente neutra, sem choque com a vida, com a terra. Eu fui aprendendo coisa com muita gente no mundo inteiro e muito interessado em aprender as coisas dos outros. Para mim a coisa mais importante que tem, depois da natureza, do choque com a natureza, \u00e9 o choque com o outro, com o outro ser humano. Quando menino era com os outros meninos, com as meninas, com os bichos. E quando eu fui crescendo era com outros seres, com os outros pensamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>6.\u00a0 O RIO DA MEM\u00d3RIA<\/strong><\/p>\n<p>Entrevista<br \/>\nOriginalmente publicada no site Museu da Pessoa, em 14 de mar\u00e7o de 2008.<\/p>\n<p><strong>Como \u00e9 que foi sua experi\u00eancia de aprender com as coisa? Voc\u00ea aprendia com quem?<br \/>\n<\/strong><strong>(continua\u00e7\u00e3o)<br \/>\n<\/strong>Eu poderia descrever muitas outras coisas da minha inf\u00e2ncia, mas acho que o mais importante foi o que essas coisas deixaram para mim, como a minha alma traduziu aqueles eventos, O meu irm\u00e3o, por exemplo, ganhou uma potrinha linda, e botou o nome dela de Natureza. A Natureza cresceu, ficou linda. Uma \u00e9guona bonita. Um dia ela estava comendo sabugo de milho, e eu vi que tinha um monte de palha embaixo de onde ela estava. Eu peguei uma vara e fui puxar as palhas, igual se puxa com rastelo. Ela deu um sinal para mim de que n\u00e3o tinha gostado daquilo, balan\u00e7ou o rabo, como se estivesse espantando mosquito. Mas eu passei a vara de novo, e ela n\u00e3o teve duvida, meteu um coice bem na boca do meu est\u00f4mago. Ela tinha tanta for\u00e7a, era lindona, fortona. E eu era aquele sacizinho. Fiquei sem ar, sem nada. Queria saber se eu ia morrer ou n\u00e3o. A\u00ed eu ca\u00ed l\u00e1. Todo mundo foi me socorrer. Carregar, dar \u00e1gua e tudo. Mas um coice bem dado no est\u00f4mago, por um animal com sa\u00fade, era bom para matar um moleque. Ent\u00e3o o que eu aprendi? O que a minha alma capturou daquela Natureza t\u00e3o linda? Que ela era minha amiga. N\u00e3o \u00e9 minha inimiga. Sen\u00e3o&#8230; \u00c9 igual uma m\u00e3e, a m\u00e3e pega e d\u00e1 no p\u00e9 do ouvido do filho. Hoje n\u00e3o pode, o juizado de menor n\u00e3o deixa. A Natureza me deu um coice na boca do est\u00f4mago e me ensinou muito mais que alguns anos de escola, de curso, de treinamento, de <em>workshop<\/em>, oficina e outras asneiras que voc\u00ea pode inventar. Com um coice ela me deu um grau, freou muita coisa minha, permitiu eu chegar vivo aos quase 54 anos de idade. Porque 29 de setembro \u00e9 o meu anivers\u00e1rio. Eu vou completar 54 anos, e quanto mais eu consigo contactar a mem\u00f3ria, eu ligo com os mais antigos, que s\u00e3o os que eu reverencio, que s\u00e3o as mem\u00f3rias dos nossos antepassados. E eu vou viajando e entranado nos mananciais de vis\u00f5es que nossos av\u00f4s, os nossos bisav\u00f4s, os nossos antepassados deixaram para a gente. A\u00ed \u00e9 muito legal. Porque o igarap\u00e9 que aquele menino bate peneira est\u00e1 ligado com o rio de mem\u00f3ria muito grande, que \u00e9 o rio de mem\u00f3ria que os mais velhos foram contando para a gente, compartilhando com a gente, ensinando. Os modelos, sabe? A resolu\u00e7\u00e3o das coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>01.08.17 Trabalho de corpo N\u00e3o fazer, s\u00f3 ser (Posturas de Yoga) trazer o corpo para&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":57,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[2,3,4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91"}],"collection":[{"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=91"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/91\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/media\/57"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=91"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=91"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/beameira.com\/lascompostivistas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=91"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}